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Renato Sousa


Início / Novidades / Quando o fogo queima por dentro.

Quando o fogo queima por dentro.

Contributo de: Teixeira Offline
Tópico: Novidades
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Saudações a todos os camaradas.

Espero que se sintam todos bem nesta nova realidade, uma guerra sem inimigo à vista.

Vou contar-vos uma história do nosso dia a dia.

Saudações a todos os camaradas.

Espero que se sintam todos bem nesta nova realidade, uma guerra sem inimigo à vista.

Vou contar-vos uma história do nosso dia a dia.

O senhor Rebelo é um bom amigo, convivemos há uma dezena de anos. O nosso elo é: Angola e Snooker. Ele irrita-se facilmente, e pode chegar a vias de facto com quem o enfrentar, mas é muito tolerante com os amigos de longa data. Estes amigos podem desabafar com ele quando são parceiros do momento no bilhar. - “Ó Rebelo, tu não jogas um ca#@lho! Pousa o taco, vai passear. Quem te meteu um taco nas mãos.”. Ele, tal como eu, joga bilhar para se divertir e descontrair. É autor de frases engraçadas, tal como: se a bola não entra -“Foi melhor assim. Ah boa!” ou “Esta já foi prá sacristia.”, se o parceiro lhe diz como jogar - “N’um t’ouço. Eu é que sei.”, etc. Neste momento o que ele mais fala é: - “O senhor Teixeira sabe que eles nos vão dar mais dinheiro?”.
Angola está sempre presente no seu discurso. Não gosta de usar mascara: - “Eu andei na guerra em Angola, nunca me aconteceu nada, vou agora andar de mascara.”. Fala dos hipotéticos filhos que lá deixou: - “Elas aproximavam-se do quartel e nós em troca de uma nótica aproveitava-mo-nos. E até casadas lá iam!”. Basta ver um indivíduo ¨de cor¨: - “Olha, este é meu filho.”.
Quando joga pior desculpa-se com os comprimidos que anda a tomar por causa daqueles problemas de Angola. Todos os amigos sabem que este período o afetou gravemente, por isso remetem a conversa para a infância e outros momentos onde ele tem histórias interessantes.
Vou contar uma delas e vou fazê-lo como se estivesse num livro infantil.
O menino Dinis era um menino que gostava muito da sua avó. A avó também gostava muito do Dinis. A avó morava longe a uns cinco quilómetros de distância, mas era frequente a mãe pegar nele pela mão e percorrer esta distância a pé. Pelo caminho pegavam amoras e flores para dar à avó. Um dia a mãe do Dinis reuniu os filhos e disse que se ia ausentar, pediu-lhes que se portassem bem na sua ausência, não iria demorar muito a regressar. O Dinis percebeu logo que a mãe ia apanhar a camioneta para visitar a avó e não tinha dinheiro para pagar os bilhetes aos filhos. O Dinis já tinha decorado o caminho. Só esperou a mãe apanhar a camioneta e logo meteu pés ao caminho. Uma hora e meia depois já estava perto da casa da avó. Ao chegar, escondeu-se atrás de uma moita, pegou numa harmónica de boca que levava no bolso e começou a tocar. Logo ouviu a voz da avó: - “Olha! É o Dinis! O Dinis!”.

Este menino de coração de ouro passados dez ou doze anos, ensinaram-no e obrigaram-no a matar para não morrer. Numa guerra estúpida em que os cobardes se tornaram heróis. Os traidores foram medalhados e os verdadeiros heróis esquecidos e abandonados.

O nosso ponto de encontro é concretamente o Café Concreto na avenida principal. A pandemia alterou muito as nossas vidas. Nada é como antes. Um dos aspetos alterados foi o aparecimento de mais esplanadas. Foi numa esplanada criada pelo Café Concreto que eu conversava com o Sr. Rebelo e logo Angola veio à baila; aí a minha curiosidade foi mais forte do-que o dever de o proteger. Perguntei-lhe o que mais o marcou. - “Foi tudo! Quase todos os dias fazíamos fogo.”, diz ele. - “Mas não houve um caso que o tivesse marcado mais?”. Ele calou, fixou o olhar no horizonte e procurava as palavras para me explicar o que aconteceu. - “Eu era condutor de berliet(Camiões que transportam grupos de tropa [url]https://ppl.pt/sites/default/files/styles/proj-large/ public/projects/img/img_0260.jpg?itok=bctXUYZG[/url]). Um dia saímos para o mato duas berliet. Eu ia à frente. Já quase de noite a berlier de trás capotou. Os soldados ficaram presos por baixo, todos pediam socorro e nós não podíamos fazer nada. Pedimos ajuda a Luanda mas naquela hora não nos puderam socorrer. Os colegas berravam pela mãe, pelo pai. Alguns casados. Um deles tirou a aliança do dedo e pediu-me que entregasse à esposa na Figueira da Foz. No dia seguinte quando chegou a ajuda, estavam todos mortos e pretos.”. Levantei-me, peguei no braço do Sr. Rebelo e senti-o mais leve. Fomos jogar uma partida de Snooker.
Repete: - “Sabe que eles nos vão dar mais dinheiro?”.
Eu digo: - “E quanto? Mais dez euros?”.

Comeram-lhes a carne e vão comer os ossos.
(4316 palavras)


Autor: Comentário:
josé eduardo marques

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Quando o Fogo Queima Por Dentro

Camarada Teixeira,

Um artigo maravilhoso. Estou certo que todos queremos mais.

Abração do,

josé eduardo marques
26.09.2020 - 18:39 Offline josé eduardo marques joseeduardo.marques at edp.pt



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