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Antonio S. Lopes


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Noite negra

Contributo de: Teixeira Offline
Tópico: Novidades
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A todos os camaradas, um abraço! Espero que tenham passado um bom Natal e um bom Ano.

Ouvi o apelo do nosso "mestre" e aqui estou com o propósito de dar uma mãozinha ou contar uma historinha das muitas que temos para contar.

Fortaleza 1973 - Estou "especado" a olhar a parede da caserna. Esta segura o Jornal com o mesmo nome. Entre ordens de serviço, escalas e outros papéis há um que me prende o olhar, diz o seguinte: "as ovelhas unem-se em rebanho porque têm medo do lobo, por isso umas comem o pasto pisado pelas outras". Eu gostei de ler isto, agora tenho uma justificação para o meu comportamento social. eu gosto de me sentir em grupo, em convívio, mas também gosto de comer erva fresca fora do rebanho.
Já conhecíamos a Ilha do Mossulo mas desta vez íamos em grupo com idéia de lá passarmos o fim-de-semana. Depois de uns 20 minutos de barco, lá está ela, virgem, nua á nossa frente; que beleza - os coqueiros e o mar disputam o mesmo espaço mas eu só via paz e silêncio. As ondas de palmo e meio afagavam as raízes dos coqueiros num vai e vem cadênciado, harmonioso, carinhoso, que ternura!
A ilha tem muita gente vinda de Luanda que dista a uns 20 kms, mas com o aproximar do fim do dia estava ficando deserta; eu estava decidido a ficar ali para o dia seguinte; os meus colegas disseram-me que não. Voltavam ao quartel e regressavam no dia seguinte.
Olho ao meu redor e vejo muita pouca gente. A ilha está prácticamente deserta. O barco já fez a última viagem. A nado nem pensar. Estava preocupado, fui dar uma volta na expectativa de encontrar algo onde pudesse passar a noite. Os vários abrigos ali construídos estavam fechados. Havia várias cubatas dos autóctones mas eu já não os encontrava. Fui vagueando por ali e a noite tornava-se mais escura, fria, apercebo-me agora que não há luz eléctrica. O que tenho comigo é uma toalha e pouco mais. A densidade dos coqueiros não deixa entrar a luz do luar, a escuridão é total. Os mosquitos são aos milhares, querem todos provar o meu sangue, sangue de branco de primeira. A meio da noite vejo um busto caminhar na minha direcção, um busto ainda mais negro do que a noite. pelo andar vejo que vem em missão de paz; sou eu que falo primeiro - "Boa noite, não tem um sítio onde possa passar a noite?" assustado acho que não falava bem português, mas entendeu-me e levou-me, apontou-me o interior de uma cubata; era o quartel general ou estado maior da mosquitada. Cobri-me com areia, com a toalha mas aqueles vampiros não me largavam.
Tinha no pulso um Seiko de horas luminosas. Tinha-o comprado em Paris depois de vários dias de namoro com o vidro da montra pelo meio. Eu olhava-o de 5 em 5 minutos mas até este parecia querer dar-me uma lição. Travava os ponteiros para que a noite não avançasse tornando-a mais longa e penosa. Como não há mal que sempre dure lá chegou a aurora e com ela um novo dia. Fui até á água, lavei a cara e senti que tinha passado o cabo das tormentas. Já com o mar calmo aguardava a chegada dos meus colegas. E aí estão eles! Bem dormidos, bem comidos, lavados, barbeados e fazem-me uma pergunta que eu esperava mas não queria responder: "Então como foi a noite!" - "Foi....oi...boa!"

Lembro-me -
das noites de tortura, de paixão,
das noites de amor e desilusão,
das noites de festa e glória,
as outras "neutras" leves sonhos
Sem lugar na memória
ou registo na história.
(0 palavras)


Autor: Comentário:
EmiliaMaria

*
Membro

Data de Inscrição: 10.03.2009
Comentários: 1
Artigos: 0
Colocações no Fórum: 0
Galeria de Imagens: 0
muito liiindoooo

[color=darkblue]Consegui sentir o que ELE lá sentiu[/color] [color=red]muito bem escrito [/color] [color=green]"As ondas de palmo e meio afagavam as raizes"[/color]

[color=orange]Parabens Teixeira[/color] april
28.02.2010 - 00:32 Offline EmiliaMaria
Antonio S. Lopes

*****
Membro

Data de Inscrição: 25.04.2009
Comentários: 12
Artigos: 42
Colocações no Fórum: 0
Galeria de Imagens: 16
Grande Narrador

Amigo Teixeira
Obrigado por nos contares mais uma aventura passada naquela Fortaleza e arredores.Continua sempre possas com historias daqueles terras e outras?
Parabéns

Um grande abraço

A.S.Lopes ::::::França
23.01.2010 - 11:57 Offline Antonio S. Lopes
josé eduardo marques

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Comentários: 28
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Colocações no Fórum: 5
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Areia, Mar, Coqueiros e Mosquitos

Amigo Teixeira,

Um texto que descreve a península/ilha como o chamamento da sereia, ou seja, o canto do "mar que enrola na areia" acompanhado do coco como iguaria e de mosquitos como castigo - a luz e as trevas, inseparáveis. Grande texto. Quero mais.

Um grande abraço do,

jem
20.01.2010 - 17:48 Offline josé eduardo marques joseeduardo.marques at edp.pt
Renato Sousa

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Administrador

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Comentários: 58
Artigos: 92
Colocações no Fórum: 10
Galeria de Imagens: 426
Noite negra dá boa "estória"

Parabéns Teixeirinha. Gostei muito da tua "estória", está bem escrita, tem conteúdo e transmite valores.

Um grande abraço
Renato
19.01.2010 - 22:58 Offline Renato Sousa renato at adelaideferreira.pt



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