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Renato Sousa


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A Ratazana

Contributo de: josé eduardo marques Offline
Tópico: Novidades
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Estórias Singelas (coisas reais misturadas com deveneios meus): A Ratazana. 2008.05.09

Estórias Singelas (coisas reais misturadas com devaneios meus)

A Ratazana

O alferes R (as letras não correspondem, obrigatoriamente, às primeiras letras de quaisquer nomes dos ditos titulares), comandante de pelotão, deu ordens para que o mesmo formasse em círculo. As praças cumpriram, acertando na figura geométrica. Estávamos no Outono de mil novecentos e setenta e dois. O local era o picadeiro. O quartel era Lanceiros. A cidade era Lisboa. O país era Portugal.

O referido alferes foi perguntando a cada uma das praças, a respectiva profissão na vida civil. Antes da praça G iniciar a resposta, eis que surge, do lado da parede oposta ao portão de entrada, um coelho, não!, um gato, não! uma ratazana, sim!. Uma enorme ratazana. Sem qualquer hesitação entrou no círculo formado pelas praças com um alferes e um furriel ao centro do mesmo. Todos, simultaneamente, sem distinção de galões divisas ou coisa alguma, iniciaram um jogo que consistia em tentar acertar com as botas, devidamente calçadas, em qualquer parte da bicha. Ao cabo de alguns, bastantes, segundos, o J acertou em cheio na parte inferior do animal. Porque o treinador que também era massagista, director da secção de futebol e presidente do clube lá da terra, lhe tinha ensinado algumas leis da física aplicadas ao futebol, assimiladas empiricamente, inclinou o corpo para trás e truz, lá vai disto que amanhã não há. A bichana saiu disparada por cima dos limites das tábuas do picadeiro e esborrachou-se, o termo é este, na parede perpendicular esquerda à parede do portão da entrada. O J foi aplaudido por todos os militares, incluindo o comandante de pelotão que terá, eventualmente, vislumbrado um bravo homem de armas. O J apenas disse “gosto muito de jogar à bola, quando era puto jogava, lá na terra, com pinhas, bravas e mansas e, até, com pedras”. “E descalço”, remata a praça T querendo fazer piada. “Sim, sim descalço”, confirma o J.

Terminada esta cena pouco edificante mas heróica, o alferes deu a palavra ao G que, olhando todos os camaradas a fim de perceber se todos, sem excepção, tinham em si fixada a atenção e, enchendo o peito de ar, mencionou: “tenho muitas profissões, meu alferes. Sou ginasta num grande clube, sou vendedor das Selecções Reader’s Digest, sou electrotécnico, ou seja, arranjo rádios e televisões a válvulas, sou agente de seguros, também”. Todas as almas presentes fitaram, com admiração, aquele que, dadas as suas competências físicas e intelectuais, iria mais tarde ou mais cedo, tornar-se, indubitavelmente, um dos líderes da Companhia. A praça seguinte, o F, homem muito grande, mãos calejadas, com a pele do rosto e do antebraço muito morena em contraste com a pele do tronco e das pernas que era alva – denunciando uma vida de trabalho no campo –, olhou fixamente o alferes e afirmou com firmeza, “sou trabalhador”. Ao contrário da reacção dispensada ao orador anterior, a maior parte dos camaradas ficaram, olhando-se, basbaques.

O J pensava com os seus botões, “mas porque é que não inclinei o tronco mais para trás? Eu queria acertar na merda da lâmpada. Tantas pessoas, lá na minha terra, sem electricidade em casa e, aqui, na tropa, até os cavalos têm luz.” Estávamos no Outono de 1972.


jem
2008.05.09
(3232 palavras)


Autor: Comentário:
Renato Sousa

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Bate Estradas

Boa companheiro, continua. É pena que o Bate Estradas se tivesse perdido pelo caminho, provocou-te para colocares artigos e agora perdeu-se "na estrada". pode ser que o encontremos ou ele se reencontre.
Renato Sousa
14.05.2008 - 17:18 Offline Renato Sousa renato at adelaideferreira.pt
josé eduardo marques

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A Ratazana

Leitores,

Na crónica "A Ratazana", onde se lê Alferes deve-se ler Aspirante e onde se lê Furriel deve-se Cabo Miliciano.

Abraço.

jem
13.05.2008 - 11:40 Offline josé eduardo marques joseeduardo.marques at edp.pt



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